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Mostrando postagens de julho, 2017

Liberdade é escravidão?

Viajar sozinha incomoda – os outros. As pessoas da rua passam despercebidas por mim. Posso ser uma moradora. Também caminho assim no Rio o tempo todo. As que me vêem nos lugares turísticos comentam: "Mas você veio sozinha?", como se fosse a coisa mais espantosa, a mais impensável. Quando confirmo, as reações são diversas. Umas senhorinhas (que deviam ter lá seus 70 anos) se espantaram, mas me encorajaram – "Tá certa, não pode se privar por falta de companhia". Um homem, pai de família (e de uma filha quase da minha idade) perguntou se briguei com o mundo e se eu não tinha namorado. Claramente, só pode haver essas duas razões pra uma mulher (mulher, sim) de 22 anos viajar sozinha, não é mesmo? Uma mulher casada e viajada, também sozinha, não me fez perguntas – contou das viagens que ela mesma faz sozinha e ficamos trocando figurinhas. As motoristas de Uber acharam legal ...

Admirável mundo novo

Da janela do avião, dava pra ver o degradê delicado que ia de azul a lilás, passando pelo amarelo e pelo rosa alaranjado. Amanhecia enquanto eu estava deixando tudo pra trás: minha cidade, meus pais, meu gato Salim e tudo o que eu conhecia há 27 anos. Fiquei pensando na despedida antes de passar pro saguão de embarque. Meu pai sério e contrariado, fazendo eu me sentir culpada por não ter ficado no Rio. Minha mãe chorando de emoção, alegria, tristeza e saudade antecipada – tudo ao mesmo tempo: "Não acredito que não vou ter meu bebê em casa agora. Não sei o que vou fazer", dizia ela enquanto alternava entre chorar e sorrir. "Eu venho pelo menos uma vez por mês, mãe. Jajá você se acostuma, vai ver", dizia enquanto dava um último abraço antes de embarcar. Eu ia sentir falta de casa. Do meu quarto decorado com a frase de uma música dos Smiths na parede, do cheiro da comida ca...

Isso é o fim de tudo

Quando deu a hora, olhei da janela da sala do apartamento sem vida. Esperei uns minutos (não sei quantos) algo diferente acontecer do lado de fora. Vi seu carro chegar e até a forma de estacionar, agora eu percebia, parecia diferente. Você sempre deixava os pneus de qualquer jeito, mesmo quando ia demorar, porque não tinha paciência pra estacionar "bonitinho". Agora, mas não sei desde quando, você perdia minutos a fio deixando o carro da forma mais simétrica possível na vaga apertada.  Eu moro no 5º andar de um prédio com elevador. Considerando que a circulação de moradores e funcionários não é grande, o elevador estaria te esperando no saguão assim que você entrasse e em 75 segundos você estaria aqui. Mas esses segundos viraram minutos e eu, ansiosa, quase desci pra te procurar.  Quando finalmente você bateu na porta - porque você nunca tocava a campainha? - eu segurei a respiração. Pensei em fingir que não estava em casa, correr pro banheiro e te ligar dizendo que esta...

Um tapa na cara e um café expresso, por favor

Era mais um dia chuvoso e frio no Rio, o quinto dia consecutivo. Eu sou carioca e não estou acostumado. Gosto de ir pra praia, de ver o por do sol no Arpoador (até aplaudir, se for o caso) e andar de bicicleta na Lagoa. Mas chove e não posso fazer nenhuma dessas coisas.  Peguei minha carteira e pus no bolso da calça. Pensei em levar as chaves do carro, mas achei inútil - peguei só as de casa. Desci desanimado os três andares até a portaria, cumprimentei o sr. Raimundo, o porteiro de tantos anos, e escolhi virar à esquerda em direção à padaria.  Distraído, passei da padaria que costumava comprar meus pães de queijo e tomar um mate nesses dias de férias em que me encontro sem muito o que fazer durante a tarde. Segui pela rua principal e me peguei entrando naquele café que a Ana sempre gostava de ir.  Assim que fechei a porta atrás de mim, só dava pra sentir o aroma abafado e forte que os grãos de café torrados exalam sob água quente. Eu gosto, mas não acho nada demai...

I once had a boy, or should I say, he once had me

Por uma questão de segurança e de interesse, prefiro não beber em um primeiro encontro. Preciso estar totalmente atenta ao que o cara tem a me dizer sobre ele, sobre o mundo, sobre nós. E também preciso tomar decisões baseadas exclusivamente na racionalidade, sem ficar tonta na hora de levantar e ir embora.  Sendo assim, lá estava eu com um chocolate quente com chantilly te ouvindo falar sobre o quão diferente era seu TCC e te percebendo concentrado nas notificações do seu celular. Isso me irritou, mas eu não comentei. Segui atenta à sua fala ansiosa que, sem querer, às vezes eu interrompia e você não deixava. Me senti meio idiota por isso, mas você deve ter me perdoado. Gostei de você porque você criticava alto alguma religião e as pessoas da mesa do lado olhavam a gente. E quando eu comentei sobre isso, você deu de ombros e continuou dizendo, alto, que não dava a mínima. Eu ri porque gosto de pessoas autênticas. Falamos sobre banalidades e sobre coisas que só se diz pra al...

As garotas do Instagram

Meu "white people problems" sempre foi não conseguir fazer um coque no cabelo dando um nó nele mesmo, de forma que os fios ficassem propositalmente bagunçados e com um ar sexy - essa última é uma leitura pessoal. Meu cabelo, sempre fino e minguado, nunca se sustentava por mais de 2 minutos na posição e se desfazia em uma simples balançada de cabeça.  Hoje tenho 580 fotos no meu Instagram e nenhuma delas é de biquíni. Nunca tive o "corpo de praia" que as revistas, as novelas, os filmes e a internet reforçam ser necessário pra curtir o verão feliz. Por isso, nunca suportei minhas fotos de biquíni de corpo inteiro, que sempre mostravam uma barriguinha saliente totalmente non grata entre o busto que preenche bem a parte de cima do biquíni e as pernas grossas plantadas na areia.  Sempre tive muita espinha no rosto e passei esses últimos 10 anos da minha vida alternando entre me encher de cremes pra espinha, tomar pílula que diminuísse elas ao invés de piorar o quadr...