Admirável mundo novo
Da janela do avião, dava pra ver o degradê delicado que ia de azul a lilás, passando pelo amarelo e pelo rosa alaranjado. Amanhecia enquanto eu estava deixando tudo pra trás: minha cidade, meus pais, meu gato Salim e tudo o que eu conhecia há 27 anos.
Fiquei pensando na despedida antes de passar pro saguão de embarque. Meu pai sério e contrariado, fazendo eu me sentir culpada por não ter ficado no Rio. Minha mãe chorando de emoção, alegria, tristeza e saudade antecipada – tudo ao mesmo tempo: "Não acredito que não vou ter meu bebê em casa agora. Não sei o que vou fazer", dizia ela enquanto alternava entre chorar e sorrir. "Eu venho pelo menos uma vez por mês, mãe. Jajá você se acostuma, vai ver", dizia enquanto dava um último abraço antes de embarcar.
Eu ia sentir falta de casa. Do meu quarto decorado com a frase de uma música dos Smiths na parede, do cheiro da comida caprichada que minha mãe fazia nos domingos, do meu pai perfumando a casa inteira depois de usar o Dolce & Gabbana que tinha ganhado de aniversário. Até de dar banho no Salim (e ser arranhada toda vez) eu ia sentir saudade.
O serviço de bordo me ofereceu a dose matinal de cafeína que eu precisava pra funcionar, interrompendo a nostalgia na minha cabeça.
Meus pensamentos me levaram às pessoas que não estavam no aeroporto se despedindo de mim: Vanessa estava na Europa com o namorado e eu já não a via há umas duas semanas por conta disso. Carol estava atarefada com o doutorado e não ia ter tempo de ir no Galeão me dar um abraço – como também não tinha tido tempo há umas semanas, então só nos despedimos por Skype. E, o mais importante de todos, Caio.
As coisas eram complicadas entre nós: nos amávamos e namorávamos há 4 anos. Mas surgiu a oportunidade dos meus sonhos no trabalho e isso significava abrir mão da minha cidade por, pelo menos, uns 2 anos. Ele podia ter ido comigo se quisesse: em todo lugar do mundo precisa-se de um professor de matemática. E ele tinha um currículo tão bom que não demoraria a encontrar um lugar pra lecionar.
Acho que ele ficou magoado por eu não ter me sentindo balançada com a proposta de emprego. Preferiria que eu ficasse pela gente. Mas parte de mim estaria infeliz e ele sabia. Por isso, nunca me pediu pra ficar.
E se pedisse?
Eu sei que eu já sou grandinha demais para ainda me deixar impressionar pelos filmes românticos que vejo no Netflix, e mesmo assim andei muito lentamente em direção ao saguão, esperando ouvir aquela voz grave e decidida gritando meu nome, com uma aliança na mão e um buquê de tulipas ou qualquer outra coisa bem hollywoodiana.
Claramente não aconteceu.
O avião pousou apenas uma hora depois da decolagem, em terras paranaenses. Fazia 7°C lá fora, de acordo com o piloto, e o dia parecia lindo.
Peguei minhas malas e fui andando com o olhar curioso de criança que descobre um mundo novo. Lembrei do protagonista do livro favorito de Caio, que sai de uma tribo de "selvagens" e vai pra Inglaterra, maravilhado com a ideia de um lugar novo. Quase chorei de saudade. Tinha feito a escolha certa?
Quando ia sair pra procurar um táxi, qual não foi minha surpresa ao ver a silhueta que eu bem conhecia, de suéter de lã, uma mochila nas mãos e na outra um cachecol rosa.
"Você não consegue mesmo lembrar de levar isso na mala, né, Maria?" – disse, abrindo o sorriso torto que só o Caio sabe dar, como se fosse o encontro mais normal e esperado do mundo. "E antes que você fale qualquer coisa: era uma surpresa. Não vim morar com você em Curitiba, mas não quero que as coisas entre nós morra. Eu te amo e não poderia te pedir pra ficar. Por isso, eu venho aqui sempre que puder até a gente decidir como vai ser. Além do mais, alguém precisa suprir você com agasalhos".
Aquele homem era o amor da minha vida. E naquele minuto não existia uma pessoa mais feliz e realizada que eu.
Agasalhados e sorrindo como nunca, saímos de mãos dadas pra desbravar o incrível, gelado e empolgante desconhecido.
"Oh, admirável mundo novo!"
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