Isso é o fim de tudo

Quando deu a hora, olhei da janela da sala do apartamento sem vida. Esperei uns minutos (não sei quantos) algo diferente acontecer do lado de fora. Vi seu carro chegar e até a forma de estacionar, agora eu percebia, parecia diferente. Você sempre deixava os pneus de qualquer jeito, mesmo quando ia demorar, porque não tinha paciência pra estacionar "bonitinho". Agora, mas não sei desde quando, você perdia minutos a fio deixando o carro da forma mais simétrica possível na vaga apertada. 
Eu moro no 5º andar de um prédio com elevador. Considerando que a circulação de moradores e funcionários não é grande, o elevador estaria te esperando no saguão assim que você entrasse e em 75 segundos você estaria aqui. Mas esses segundos viraram minutos e eu, ansiosa, quase desci pra te procurar. 
Quando finalmente você bateu na porta - porque você nunca tocava a campainha? - eu segurei a respiração. Pensei em fingir que não estava em casa, correr pro banheiro e te ligar dizendo que estava presa no trânsito do outro lado da cidade e que hoje não ia dar pra conversar. Mas depois vi o quanto eu estava sendo ridícula em protelar o inevitável, então suspirei alto, respirei fundo de novo e abri a porta fingindo que tava tudo bem.
Você entrou sério, sem me olhar nos olhos e passando rápido por mim até o sofá. Começou a falar de forma acelerada que estava se sentindo muito sedentário e por isso estava tentando subir de escada ao invés de usar o elevador. Acho que você sabia que eu sabia que era mentira - você gosta de fazer longas caminhadas ou subir vários andares de escada quando quer pensar na vida. 
"...Enfim, acho que a gente tem que conversar". Eu sempre odiei tudo que sucede essa frase. Seu rosto retesado de angústia pela situação e de um pouco de vergonha me tiravam do sério. Me dei conta de que eu estava prendendo de novo a respiração, sem querer, porque terminar um relacionamento de tantos anos parecia algo muito doloroso, mesmo sem ter acontecido ainda. 
"Tudo bem, eu sei que você quer terminar comigo. Eu ia perguntar o porquê, mas decidi que não quero saber. Então, se era só isso..."
Acho que eu nunca consegui te deixar tão espantado. Você costumava dizer que eu era a pessoa mais previsível do mundo: "Ah, Carol, eu te conheço..." e começava a citar como que, no nosso aniversário de namoro, eu sempre queira ganhar flores (rosas vermelhas), uma caixa daquele chocolate suíço e jantar no restaurante do primeiro encontro, ou sobre como eu me comportava sempre que brigávamos, ou como eu me sentia solitária e manhosa toda vez que você ia pra São Paulo a trabalho. 
"Carol, eu não sei o que dizer. Quando você tenta facilitar, parece que deixa tudo mais difícil". 
Você dizia que eu não era nada prática e que sempre complicava tudo porque queria saber o motivo do motivo do motivo. E agora eu estava ali, na sua frente, verbalizando a decisão que você já tinha tomado.
"Você também quer isso? Acha que vai ficar melhor sozinha?"
Não. Eu não achava. Eu queria estar com você porque eu ainda te amava, mesmo que nosso namoro de tantos anos fosse, há tantos anos, a mesma coisa. A rotina não me incomodava, mas eu sabia que te angustiava. Sabia que minha previsibilidade era demais pra você e que você gostava de novidades e da instabilidade que vinha com isso, que isso te despertava uma adrenalina boa. 
Eu via isso, sempre vi. Eu só não queria acreditar que tinha se tornado insustentável. Prendi a respiração de novo e por meio segundo eu quis ser a mulher baladeira, que muda de ideia como quem muda de roupa, que faz coisas loucas como aparecer na sua porta às 2h da manhã de um domingo, bem segura de mim e que não se importa com a incerteza.
Mas me enxerguei no espelho emoldurado em cima da estante da sala e vi tudo que eu era de verdade – tudo o que você já não suportava mais lidar.
Então enchi meu pulmão asmático de ar e disse que ficar sozinha era o melhor pra todo mundo agora.
Quando passou pela porta, você olhou por cima do ombro pra sorrir aquele sorriso tímido e culpado e eu vi nos seus olhos uma luz de esperança que diz "ela pode ser bem diferente do que sempre foi?".
Mas não me agarrei a isso: seria o que sempre fui porque isso estava nas minhas veias, misturado com meu sangue. E se eu não tinha conseguido mudar enquanto estávamos juntos, por que o faria agora? 
Fechei a porta atrás de mim e não fui pra janela acenar enquanto você ia embora. Encarei de novo o espelho da sala e, apesar de sentir sua falta desde já, senti uma pontada de orgulho por não tentar ser diferente por ninguém. Nem por você. 

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