As garotas do Instagram
Meu "white people problems" sempre foi não conseguir fazer um coque no cabelo dando um nó nele mesmo, de forma que os fios ficassem propositalmente bagunçados e com um ar sexy - essa última é uma leitura pessoal. Meu cabelo, sempre fino e minguado, nunca se sustentava por mais de 2 minutos na posição e se desfazia em uma simples balançada de cabeça.
Hoje tenho 580 fotos no meu Instagram e nenhuma delas é de biquíni. Nunca tive o "corpo de praia" que as revistas, as novelas, os filmes e a internet reforçam ser necessário pra curtir o verão feliz. Por isso, nunca suportei minhas fotos de biquíni de corpo inteiro, que sempre mostravam uma barriguinha saliente totalmente non grata entre o busto que preenche bem a parte de cima do biquíni e as pernas grossas plantadas na areia.
Sempre tive muita espinha no rosto e passei esses últimos 10 anos da minha vida alternando entre me encher de cremes pra espinha, tomar pílula que diminuísse elas ao invés de piorar o quadro e me maquiando direito pra esconder o que não tinha como dar jeito.
Não tenho muita delicadeza. Quando eu era criança, todas as minhas amiguinhas faziam balé o jazz. Tentei umas aulas experimentais e disse pra mim mesma que jamais calçaria uma sapatilha daquelas de novo porque não tinha nascido pra aquilo. Ao invés disso, fui fazer natação - e era ótima.
Minhas notas sempre foram as (ou uma das) melhores da turma durante quase toda minha vida acadêmica, com um pequeno limbo ali no ensino médio, cujo nível de dificuldade estava acima da minha capacidade e da minha bagagem de aprendizado para poder ser a melhor. Foi uma grande mudança.
E acho que por isso comecei a ter crise de ansiedade. Com 16 anos, no natal, tive minha primeira sensação de quase morte. Tive taquicardia por tantas horas que achei que não sobreviveria. Depois tive que tomar Rivotril pra não passar mal no meio da rua. Daí parti para coisas mais pesadas, como remédio pra controlar a gastrite que virava refluxo e até uma tomografia pra ver se eu não tinha um tumor no cérebro depois de ter repetidas sensações de desmaio e vertigem.
Eu já tenho 22 anos. Faço terapia desde o ano passado e minha ansiedade melhorou muito, mais do que com os controlados (que eu já tinha me livrado desde 2013). Cansei de ficar me comparando com aquelas meninas bonitas do Instagram que parecem perfeitas por terem cabelos longos e lisos caindo em cascata pelo ombro e costas. Atualmente ele está extremamente curto, no estilo joãozinho, como sempre quis e nunca tinha tido coragem. Esses dias, pela primeira vez em sei lá quantos anos, me olhei no espelho (de perfil e de frente) despida de roupas e de tristeza com a minha barriguinha. Minhas espinhas me incomodam e estou prestes a começar outro tratamento dermatológico pra diminuir, mas não me acho menos bonita por isso. Continuo indelicada e estabanada, mas forte e enérgica. Assim, decidi me matricular nas sonhadas aulas de kickboxing e dançar na balada até o chão, do meu jeito, porque descobri que amo movimentar meu corpo ao som de quase qualquer música. Voltei a ser uma das melhores da turma na faculdade e, ao invés de sentir o peso de ser a referência da turma, lido como a indicação de que serei uma boa profissional.
Acordei hoje pela manhã e caiu a ficha: não me sinto inferior a ninguém. Tenho amigos incríveis por perto, a melhor mãe que eu poderia querer, personalidade pra me mostrar diferente e coragem pra fazer o que eu mais gosto independente de opiniões alheias. Me senti completa, feliz e plena. Fico grata pelas pessoas que tenho por perto e pesar pelas que não quiseram me descobrir mais: elas estão mais na desvantagem do que eu por não tê-las do lado.
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