I once had a boy, or should I say, he once had me

Por uma questão de segurança e de interesse, prefiro não beber em um primeiro encontro. Preciso estar totalmente atenta ao que o cara tem a me dizer sobre ele, sobre o mundo, sobre nós. E também preciso tomar decisões baseadas exclusivamente na racionalidade, sem ficar tonta na hora de levantar e ir embora. 
Sendo assim, lá estava eu com um chocolate quente com chantilly te ouvindo falar sobre o quão diferente era seu TCC e te percebendo concentrado nas notificações do seu celular. Isso me irritou, mas eu não comentei. Segui atenta à sua fala ansiosa que, sem querer, às vezes eu interrompia e você não deixava. Me senti meio idiota por isso, mas você deve ter me perdoado.
Gostei de você porque você criticava alto alguma religião e as pessoas da mesa do lado olhavam a gente. E quando eu comentei sobre isso, você deu de ombros e continuou dizendo, alto, que não dava a mínima. Eu ri porque gosto de pessoas autênticas.
Falamos sobre banalidades e sobre coisas que só se diz pra alguém muito íntimo. Você disse que minha alergia tinha um fundo emocional fortíssimo. Eu te contei que era ansiosa e você disse que tinha ansiedade também e depressão. Trocamos figurinhas sobre como é passar mal e ninguém entender bem o motivo. Você riu aquela risada sarcástica de gente incompreendida e eu ri feliz de ter conhecido alguém que compreendesse e não julgasse. 
Lembro de pegar um guardanapo e esquematizar um neurônio pra te explicar como funcionava um dos remédios que você precisava tomar - e que eu tinha usado por anos, também. Você riu dos meus rabiscos e guardou essa prova material de que um dia na vida você aprendeu alguma coisa mínima de farmacologia.
Já passava das 21:30h e eu precisava ir pra casa. Tinha acordado 5h da manhã pra ir pra faculdade fazer duas provas e apresentar um seminário. Então estava cansada e preocupada com a condução que ficava cada minutos mais infrequente. 
Com seu jeito descomprometido, você disse que eu podia ir pra sua casa ver Netflix. Onde já se viu eu ir pra casa de um ilustre desconhecido? Então eu fui obrigada a dizer que... "tudo bem, mas eu não vou demorar porque tá tarde".
Acabei me sentindo bem confortável no seu quarto cheio de jogos nerds, um piano eletrônico soterrado por revistas e alguns livros na prateleira. Dividimos sua cama de solteiro conversando até eu lembrar que já tinha passado muito tempo e eu realmente não podia mais ficar. 
Você esperou meu ônibus passar enquanto eu limpava os resíduos da minha maquiagem que ficaram no seu rosto. Ainda me recordo de ouvir você falar algo sobre urbanização da periferia e falta de infraestrutura. Eu respondia monossilabicamente porque algo em mim dizia que eu nunca mais ouviria sua voz. Parei a primeira coisa que me servia, nos despedimos da forma mais desengonçada possível e era pra eu te avisar quando chegasse em casa. 
Acenei e sorri como uma criança que se despede de um lugar do qual gostou muito e sabe que não vai mais voltar. 
E não voltei. 

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