Um tapa na cara e um café expresso, por favor

Era mais um dia chuvoso e frio no Rio, o quinto dia consecutivo. Eu sou carioca e não estou acostumado. Gosto de ir pra praia, de ver o por do sol no Arpoador (até aplaudir, se for o caso) e andar de bicicleta na Lagoa. Mas chove e não posso fazer nenhuma dessas coisas. 
Peguei minha carteira e pus no bolso da calça. Pensei em levar as chaves do carro, mas achei inútil - peguei só as de casa. Desci desanimado os três andares até a portaria, cumprimentei o sr. Raimundo, o porteiro de tantos anos, e escolhi virar à esquerda em direção à padaria. 
Distraído, passei da padaria que costumava comprar meus pães de queijo e tomar um mate nesses dias de férias em que me encontro sem muito o que fazer durante a tarde. Segui pela rua principal e me peguei entrando naquele café que a Ana sempre gostava de ir. 
Assim que fechei a porta atrás de mim, só dava pra sentir o aroma abafado e forte que os grãos de café torrados exalam sob água quente. Eu gosto, mas não acho nada demais. Pedi uma fatia de bolo e um café expresso. Me sentei no canto, próximo à janela. 
O primeiro gole foi um susto amargo - me fez lembrar do que ela dizia sobre café. Aquela viciada em cafeína sempre reclamava do café solúvel que eu insistia em ter em casa. "Eu não vejo diferença no sabor, Ana, café é tudo igual", ao que ela ria como se eu fosse uma criança tola que não sabe o que diz. Agora, refletindo melhor, ela estava certa: café solúvel é um lixo. 
Reparei que não estava doce o suficiente e larguei, sem medir, um sachê de açúcar dentro da xícara. No segundo gole, quase ouvi a voz dela do meu lado reclamando que não se põe tanto açúcar em bebida nenhuma, senão ela perde o sabor original e vira uma solução açucarada que não diz nada. 
Ana era engraçada. Mas complicava tudo. "Um homem não pode tomar um café sossegado em casa sem ouvir essas críticas tagarelas da sua namorada?", era o que eu costumava dizer quando ela se metia na forma como eu preparava meu desjejum. Pensando bem, isso era grosseiro e eu não reparava porque ela dava de ombros e saía dizendo que eu não sabia apreciar seus incríveis conselhos.
Terminei de comer e olhei as mesas ao redor. Avistei, na mesa mais perto da porta, uma cabeça feminina, que devia ter lá seus 26 anos, a franja dos anos 60 perfeitamente cortada cobrindo a sobrancelha enquanto o resto do rosto se escondia atrás de O Retrato de Dorian Grey. Por uns segundos, que pareceram infinitos, meu coração disparou e senti minha garganta seca. 
Ana.
Devia ter uns 10 meses que não nos víamos ou nos falávamos. Agora, me esforçando, não consigo saber ao certo porque terminamos. Não, lembrei, já fazia mais de um ano. Estávamos no apartamento dela, no Centro, e ela dizia que queria viajar comigo no inverno pra Canela. Ana sempre foi entusiasta de viajar em casal e eu nunca quis porque tinha medo de terminarmos entre a compra das passagens e a viagem. Mas dessa vez não ia ter jeito e eu tinha dito que iria, sem nenhum entusiasmo. 
No início ela ficou feliz porque viu sua vontade ser realizada. Mas no minuto seguinte viu meu desânimo e ficou com raiva de mim. "Você nunca é sincero comigo, Alex. Por quê?", com aquela voz firme e inquisidora que ela tinha quando ficava realmente chateada. Ao que eu respondi da pior forma possível: "Porque você é complicada demais, Ana. Isso não é só uma simples viagem pra você. Nada com você é simples. Daqui a pouco você vai achar um empecilho na sua cabeça que torne tudo isso algo com o qual você não sabe lidar, seja por achar que estamos ficando íntimos demais rápido demais, seja por achar que eu não tenho segurança nos meus sentimentos, ou você nos seus", algo assim.
Ana sempre foi de chorar em filme. Então estava acostumado a ver aquele rosto sereno e alegre se transformando em olhos apertados e inchados de choro e soluços. Mas a expressão no rosto dela, naquele dia, era diferente de todas as outras. Não era tristeza, era como se eu a tivesse flagrado fazendo algo muito errado. Era isso: arrependimento.    
Ela disse que me amava e que eu é quem não sabia lidar com isso. Lembro de ter ido embora sem me despedir, chateado com ela e com a mania dela de achar que tinha razão sobre tudo, mesmo quando estava totalmente equivocada. Ela não me procurou mais e fiquei dizendo pra mim mesmo que era porque ela é muito orgulhosa. E, de novo agora, me sinto tendo feito papel de idiota. 
O capítulo acabou e ela fechou o livro. Levantou a cabeça e me achou, tomando meus últimos goles de café. Primeiro ela se surpreendeu, depois veio aquele olhar da última vez - que agora eu entendia que não era arrependimento coisa alguma, era de decepção. E nesse momento, achei que não conseguiria nunca mais levantar da cadeira.
Ficamos assim, segundos imóveis em nossas cadeiras, olhando um para o outro com 5 mesas de distância entre nós. Senti vontade de levantar e pedir desculpas, com um ano de atraso, por ser babaca, por ser insensível e sair dali direto para o Galeão pra viajar com ela pra onde ela quisesse. Porque, desde que tomei aquele primeiro gole, lembrei do quanto eu tinha gostado dela e percebido que ainda gostava. Ana sempre me fez bem. 
Um cara ruivo, de terno e gravata, passou por ela e beijou o topo de sua cabeça. Ela sorriu, ainda desconsertada. Levantou, se abraçaram e se beijaram. Ela pegou a bolsa e o livro e saiu de mãos dadas com ele, sem olhar pra trás. 
Da janela, a vi passar feliz e entusiasmada, gesticulando enquanto falava muito. Não tinha decepção nem tristeza no semblante e preferi guardar essa visão como a última imagem dela. Gostaria de conservar ela desse jeito na memória porque era como me lembrava dela na maioria do tempo em que estivemos juntos. 
Não era ela que complicava as coisas, era meu medo infantil e ansioso de que as coisas dessem errado: até o dia que deram. Ana sempre teve razão, sobre tudo. E é por isso que, admitindo tarde demais, eu a amava também.

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