Liberdade é escravidão?
Viajar sozinha incomoda – os outros.
As pessoas da rua passam despercebidas por mim. Posso ser uma moradora. Também caminho assim no Rio o tempo todo.
As que me vêem nos lugares turísticos comentam: "Mas você veio sozinha?", como se fosse a coisa mais espantosa, a mais impensável. Quando confirmo, as reações são diversas.
Umas senhorinhas (que deviam ter lá seus 70 anos) se espantaram, mas me encorajaram – "Tá certa, não pode se privar por falta de companhia".
Um homem, pai de família (e de uma filha quase da minha idade) perguntou se briguei com o mundo e se eu não tinha namorado. Claramente, só pode haver essas duas razões pra uma mulher (mulher, sim) de 22 anos viajar sozinha, não é mesmo?
Uma mulher casada e viajada, também sozinha, não me fez perguntas – contou das viagens que ela mesma faz sozinha e ficamos trocando figurinhas.
As motoristas de Uber acharam legal e uma delas estava pra fazer a mesma coisa mês que vem. Se inspirou no que eu disse sobre ser viajante solitária e falou que ia ser o título do álbum das fotos no Facebook.
Os motoristas ficavam mais calados, sem esboçar reação ou tecer comentários. Melhor assim.
Um cara que estava no ônibus de turismo perto de mim me abordou na entrada do restaurante e disse "Você tá sozinha, né? Vamos almoçar juntos". Fui pega tão de surpresa que não deu tempo de dizer não. À contragosto, almocei conversando pouco e esperando o bonito terminar de comer pra pedir a conta e seguir meu caminho em paz.
Pessoas de todo o mundo, entendam: Não há nada de errado em viajar sozinha – foco no artigo feminino porque não vejo esse espanto quando é um homem da mesma idade.
Realmente não tenho namorado, mas talvez viajasse sozinha mesmo assim caso ele não quisesse ou pudesse ir. Tenho muitas amigas e a maioria têm seus próprios namorados pra viajar, mas essa é a desculpa que eu dou pras pessoas que me importunam: não convidei nenhuma das minhas amigas. Eu não convidei ninguém. Só peguei meu dinheiro guardado, fiz as contas e comprei as passagens.
E sabe por quê? Porque eu e o mundo nunca estivemos tão em paz um com o outro. Então não, não estamos brigados.
Eu não preciso da companhia solidária de ilustres desconhecidos nas viagens. Só preciso do meu fone de ouvido, meu pau-de-selfie pra tirar minhas fotos bonitas, de um bom livro e do silêncio pra estar comigo mesma.
Vocês podem achar que isso é solidão. E talvez por isso vocês insistam em impor suas presenças no meu momento de paz. Mas lhes asseguro: vocês não estão me libertando de nada porque não sou uma vítima da situação.
Onde vocês vêem solidão, eu vejo liberdade. E como disse Clarice Lispector: "Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome".
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