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Vermelho

Estou adiando esse texto tem dias. Em parte porque não sabia como começar. Em parte porque, enquanto não escrevo, fico com esses sentimentos rabiscados na cabeça e gosto porque são sobre você e protelo pra ficar com eles assim, intactos, por mais tempo. Sábado estava te vendo chegar. Seu passo rápido e determinado fazendo seu corpo esbelto aparecer no meu campo de visão mais e mais rápido. Pensei em ir de encontro, logo de cara, mas achei por bem não: gosto de te observar chegando. É o momento que posso te olhar com calma sem parecer estranha. Te admirar quietinha antes de você começar a falar comigo e não parar mais. Mas dura pouco porque minha ansiedade não permite e vou até você. Sou péssima em esperar. Você me abraça e seu perfume bom abre o meu primeiro sorriso alegre do dia. Sou como a raposa do Pequeno Príncipe e desde as 3h da tarde já começo a ser feliz. Mas felicidade é estado de espírito e alegria é sentimento, coisa do momento, da fração de segundos que se segue depois qu...

Segunda chance

Fico arrependida logo assim que te encontro. Você é um carinha até legal pra se conversar pela interrnet, mas pessoalmente não temos assunto nenhum. Ainda não sei porque aceitei sair com você de novo. Talvez aquilo de que todo mundo merece uma segunda chance... Você acena pra mim e eu quero girar nos calcanhares e dar meia volta, fingir que não sou eu e sair correndo de volta pra minha casa. Mas agora não tem mais jeito e aqui estamos nós, andando pelo shopping tentando conversar como gente normal. Eu sei que não quero ficar com você mesmo antes de ter ficado. Sei que você também não vai tomar nenhuma iniciativa louvável, exatamente como não tomou da outra vez, então sugiro almoçarmos. Quanto antes, mais rápido saio daqui. Minha sorte é a fome: posso comer e comer e comer e passar minutos sem precisar inventar um assunto em que você possa conversar de igual pra igual. Não que eu me sinta superior, mas o fato de não tee nenhum amigo em comum com você, nem um mesmo espaço em comum ou ...

Oceano

De repente, eu pisquei e a garotinha de olhos curiosos e sorriso travesso não estava mais lá. Eu a tinha perdido. Só não sabia se era mais no sentido físico ou no emocional. Tanto fazia agora, porque ela tinha sumido.  Passei aflita o olhar por todos aqueles rostos com fisionomias apressadas, sonolentas, inquietas. Mas nenhum deles era o dela. Nenhum tinha aquele jeito de quem quer ser adulto, mas continua inocente como uma criança de cinco anos e de quem tenta abraçar o mundo ao mesmo tempo que constrói uma muralha pra se proteger dele. A menina, a minha menina, não estava em lugar nenhum.  Eu não conseguia me lembrar de quando a tinha perdido. Quando foi que ela parou de ficar do meu lado, quando parei de ter controle dos seus passos? Que dia, em que lugar, em que batida do ponteiro do relógio ela não estava mais aqui? Entre quais segundos ela tinha escapado pelos meus dedos? Foi preciso eu piscar mais algumas vezes até o momento interminável acabar. Me dei conta de q...

Cilada

Quando eu era criança, meu jogo favorito era um chamado Cilada: era uma espécie de tabuleiro cheio de triângulos, quadrados e círculos em alto relevo e várias peças, com dois ou três triângulos, quadrados ou círculos vazados que encaixavam nesse tabuleiro.  Nas primeiras vezes, sempre sobravam peças e formas no tabuleiro, que não davam pra encaixar. Às vezes, acontecia de sobrar uma única forma e todas as peças já terem sido encaixadas. Sabia que tinha feito algo errado, mas não conseguia ver o que. Daí espalhava todas as peças e recomeçava.  Tinha vezes que eu ficava com tanta raiva de não ter dado certo, de novo, que queria cortar uma peça pra caber ali. Ou então, tirar a forma geométrica que sobrou do tabuleiro. Ambas as coisas eram impossíveis. O que foi bom, senão jamais teria aprendido a encaixar e ganhar o jogo. Hoje eu me dei conta que sou como uma peça do Cilada.  Sempre achei que, quando a pessoa que eu gosto não gosta de mim, era porque eu não sou boni...