Oceano

De repente, eu pisquei e a garotinha de olhos curiosos e sorriso travesso não estava mais lá. Eu a tinha perdido. Só não sabia se era mais no sentido físico ou no emocional. Tanto fazia agora, porque ela tinha sumido. 
Passei aflita o olhar por todos aqueles rostos com fisionomias apressadas, sonolentas, inquietas. Mas nenhum deles era o dela. Nenhum tinha aquele jeito de quem quer ser adulto, mas continua inocente como uma criança de cinco anos e de quem tenta abraçar o mundo ao mesmo tempo que constrói uma muralha pra se proteger dele. A menina, a minha menina, não estava em lugar nenhum. 
Eu não conseguia me lembrar de quando a tinha perdido. Quando foi que ela parou de ficar do meu lado, quando parei de ter controle dos seus passos? Que dia, em que lugar, em que batida do ponteiro do relógio ela não estava mais aqui? Entre quais segundos ela tinha escapado pelos meus dedos?
Foi preciso eu piscar mais algumas vezes até o momento interminável acabar. Me dei conta de que eu estava procurando errado: ela não era mais minha menininha. Ainda tinha aquela fisionomia, mas com algo a mais, de quem estava desbravando o mundo, sem medo. 
Era ela ali, naquele mar de gente, frágil, pequena e desatenta aos perigos do mundo das pessoas grandes. Mas tal como aquelas tartarugas que acham o caminho pro mar sozinhas, ela já tinha achado o dela. E estava indo bem rumo à maré ou lutando contra ela. 
Então, ela virou na minha direção, acenou e entrou naquele trem. Partiu sem mim, mas partiu pro destino que lhe cabia. Não sabia se eu teria espaço nele, mas tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. 
Minha garotinha era grande, agora. Uma pequena mulher que sorri pra mim enquanto eu digo “até logo”. 
Logo mesmo. Eu espero. 

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