Vermelho

Estou adiando esse texto tem dias. Em parte porque não sabia como começar. Em parte porque, enquanto não escrevo, fico com esses sentimentos rabiscados na cabeça e gosto porque são sobre você e protelo pra ficar com eles assim, intactos, por mais tempo.
Sábado estava te vendo chegar. Seu passo rápido e determinado fazendo seu corpo esbelto aparecer no meu campo de visão mais e mais rápido. Pensei em ir de encontro, logo de cara, mas achei por bem não: gosto de te observar chegando. É o momento que posso te olhar com calma sem parecer estranha. Te admirar quietinha antes de você começar a falar comigo e não parar mais. Mas dura pouco porque minha ansiedade não permite e vou até você. Sou péssima em esperar.
Você me abraça e seu perfume bom abre o meu primeiro sorriso alegre do dia. Sou como a raposa do Pequeno Príncipe e desde as 3h da tarde já começo a ser feliz. Mas felicidade é estado de espírito e alegria é sentimento, coisa do momento, da fração de segundos que se segue depois que meu cérebro interpreta a informação de que é ninguém menos que você ali.
Mas você não deve saber disso. Você me pega te olhando, junta as sobrancelhas negras ao mesmo tempo que aperta os olhos e puxa levemente o canto direito da boca (e não faz ideia de como fica lindo quando faz isso!), a pseudo franja de quem não corta o cabelo há tempos caindo na testa: você me pergunta o que houve e eu quase dou uma risada. Esqueço que você não pode saber o que eu estou pensando e me pergunto mentalmente como está a minha expressão facial. Mas sorrio e digo que não é nada. E você não me acredita porque é teimoso e eu adoro a sua teimosia. Digo que gosto de ficar te olhando e é verdade, mas você estranha.
Claro, eu sou estranha. Devo ser a única pessoa que reserva alguns segundos, assim, pra assimilar tudo detalhadamente. De estudar o outro como se fosse uma perita. Analisar você pra poder tentar entender, ou apenas acreditar, como a vida é cheia das improbabilidades e ter te feito surgir do nada, ou do efeito borboleta, sei lá, direto pra minha vida monótona e cheia de pedaços faltando.
E bendita seja toda a teoria do caos e da lei do eterno retorno que me fazem ser feliz por alguns momentos ao pensar, prepotente, que eu possa ser parte pequena e importante da pecinha que falta no seu punho esquerdo.

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