Cilada

Quando eu era criança, meu jogo favorito era um chamado Cilada: era uma espécie de tabuleiro cheio de triângulos, quadrados e círculos em alto relevo e várias peças, com dois ou três triângulos, quadrados ou círculos vazados que encaixavam nesse tabuleiro. 
Nas primeiras vezes, sempre sobravam peças e formas no tabuleiro, que não davam pra encaixar. Às vezes, acontecia de sobrar uma única forma e todas as peças já terem sido encaixadas. Sabia que tinha feito algo errado, mas não conseguia ver o que. Daí espalhava todas as peças e recomeçava. 
Tinha vezes que eu ficava com tanta raiva de não ter dado certo, de novo, que queria cortar uma peça pra caber ali. Ou então, tirar a forma geométrica que sobrou do tabuleiro. Ambas as coisas eram impossíveis. O que foi bom, senão jamais teria aprendido a encaixar e ganhar o jogo.
Hoje eu me dei conta que sou como uma peça do Cilada. 
Sempre achei que, quando a pessoa que eu gosto não gosta de mim, era porque eu não sou bonita o bastante, inteligente o suficiente, tão sagaz, tão engraçada e que me falta alguma coisa. 
Mas hoje, não. Hoje eu enxerguei que eu só não encaixo naquela parte do jogo. E a culpa não é nem minha, nem do tabuleiro. Eu sou uma peça perfeita, mesmo com os arranhões, com as marcas do tempo, com a tinta já se desbotando em algumas partes e, ainda assim, não há nada de errado comigo, não me falta nada. Eu não preciso ser cortada ao meio pra caber, embora eu tenha tentado isso muitas vezes.
Contudo, não sou eu quem controla o jogo. Talvez houvesse um lugar pra mim se todas as peças saíssem do tabuleiro e o jogo recomeçasse. Mas as coisas não funcionam assim, não é? A vida não é algo que a gente possa apertar o restart ou jogar tudo pro alto quando tem vontade. 
Então, como uma peça que não cabe, me retiro e espero, com toda a esperança que uma peça de Cilada pode ter, que eu caiba perfeitamente em outro tabuleiro, em uma outra partida. E, se eu puder escolher, que seja na última jogada.

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