Tempo e espaço

Abri a porta do quarto que um dia dividimos. Esse dia parecia muito distante, mas não faz nem um mês desde a última vez que você veio. Entrei e vasculhei com os olhos qualquer prova material de que você tinha estado ali comigo um dia. Mas nada encontrei.
Ao invés disso, lembrei do porta retrato vazio, jogado na mesinha, que havia comprado semana passada. Ainda não tinha tido tempo de mandar revelar uma das nossas raras fotos juntos pra preenchê-lo. Agora ele continuaria sem vida. 
Não satisfeita, comecei a procurar não sei o que no guarda-roupa e, revirando minhas gavetas, achei o cartão feito à mão que me dera há exatamente 1 semana. Ousei abrir e li todas as coisas bonitas que tinha me escrito, num tempo que parecia extremamente distante. 
Cogitei me desfazer dele. Mas preferi não, fiquei com pena - de mim. Era a única coisa que você tinha me deixado. A única coisa que me fazia lembrar que você tinha me amado um dia como eu te amei - e como ainda te amo.
Porque você foi a pessoa que apareceu quando eu já tinha me reinventado e me organizado de todos os contratempos anteriores. Te conheci quando não tinha mais esperanças de conseguir me entregar verdadeiramente pra ninguém de novo. 
Mas pra ti, algo em mim fez abrir uma exceção. Não sei se foi seu jeito doce de sorrir, que me lembrava o de uma criança travessa; ou se foi porque você parecia entender as coisas loucas que eu tentava explicar - e tinha paciência pra ouvir. 
Até outras pessoas sabiam que você era minha exceção. Que contigo, eu era uma versão melhor do que havia sido com as pessoas que vieram antes. Eu te olhava e algo em mim dizia que, só pra variar, eu podia ter algo verdadeiro e duradouro.
Pra você eu também fui um caso único: você nunca desistiu de um relacionamento assim tão rápido. E, pra ser honesta, eu não entendi bem o porquê. Você disse que eu corri muito com tudo. E que me afastar evitaria um desfecho pior. 
Mas eu não sei o que podia ser pior. Todos os meus piores cenários não são tão ruins quanto a realidade que se desenrolou do nada, como um soco aleatório de algum estranho na rua. 
Sigo não sabendo o que fazer com as coisas que sobraram dentro de mim. Queria que fosse simples como devolver o cartão ou quebrar o porta retrato em mil pedacinhos. Gostaria de poder arrancar de mim todo o amor e carinho que, sem destino, não tem mais serventia. 
Enfim, desisto de querer o impossível. Prefiro me dar por vencida e ir dormir na minha cama, que ficou mais larga, no quarto que ficou maior. Aqui não tem mais suas coisas espalhadas. Nem seu lençol sendo confundido com o meu, no meio da noite. 
E eu, que sempre me senti tão apertada, vi que estava sobrando bastante espaço - no quarto e dentro de mm. 

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