Cotidiano I
Era mais um dia comum. Eu voltando o trabalho cansada, com a bolsa pesada, pensando em tudo que eu teria pra fazer quando chegasse em casa e indo em direção à estação pegar o metrô - que, àquela hora, não estaria mais lotado. Parei um pouco antes da catraca pra poder fumar um último cigarro antes de encarar mais uma boa uma hora de viagem até a minha casa.
Já passava das sete da noite e, por estar perto do natal, o movimento nos arredores era maior que o de costume.
Eu gostava de me encostar na parede enquanto fumava e observar o fluxo de pessoas. Me divertia imaginando para onde elas estavam indo, o que elas tinham dentro das sacolas das lojas do shopping e coisas assim.
Um casal que estava vindo do shopping parou perto das catracas para se despedir. A menina de um metro e meio parecia uma criança. O rapaz era mais alto, mas não de uma forma desproporcional. Era um casal normal que se beijava pra se despedir. Claramente, alguém ia pegar o metrô e o outro ia por outro caminho.
O que me chamou a atenção é que eles sorriam bastante. Sorriam como se tivessem ganhado na Mega-Sena ou descoberto alguma fonte de petróleo. Uma felicidade genuína que a gente não costuma ver todos os dias.
Apaguei o resto do cigarro e fui andando pra dentro da estação. Enquanto eu ainda procurava o cartão de passagem, a menina se desgarrou relutante dos braços do rapaz e passou pela catraca na minha frente.
Quando eu finalmente passei também, a vi olhando pra trás, antes de descer as escadas. Será que tinha reparado que eu os observava? Mas daí ela sorriu e eu entendi que não era a mim que ela olhava. Disfarcei e olhei para trás também.
Ele tinha se afastado um pouco e estava olhando ela ir e, como se soubesse que ela daria um último tchau, ficou esperando. Achei isso porque ela deu um sorriso, mas seu acenar tímido indicava que ela não estava esperando vê-lo ainda parado olhando por ela. Depois desceu com os dedos nos lábios e ficou sorrindo como se nada mais importasse.
Quando o metrô chegou, entramos no mesmo vagão e, antes que ela descesse, pude vê-la sentada com uma expressão de alegria misturada com uma satisfação absoluta de quem tem um dia muito bom, daqueles que nada de ruim pode perturbar sua calma.
Fiz meu caminho pra casa lembrando daquele semblante e me perguntando a última vez que tinha sentido algo parecido. Algo que me fizesse expressar de forma tão óbvia a minha alegria pra qualquer um que estivesse cruzando meu caminho.
Será que eles eram namorados? Estavam juntos há muito tempo? Ou eles tinham acabado de se conhecer? Quem gostava mais de quem? E quem tinha começado a gostar primeiro?
Fiquei com todas essas perguntas de gente curiosa na cabeça, torcendo para encontrar a menina outro dia e poder saber mais, observar mais.
Confesso que senti um pouco de inveja daquela menina. Mas mesmo assim, estava torcendo para ela ser feliz e continuar contagiando as pessoas que tinham a sensibilidade de reparar no sorriso de uma garotinha no metrô.
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