É pela paz que eu não quero seguir admitindo
Rio de Janeiro.
Quem mora, sabe que aqui se vive um cenário de guerra. E tem pra todo mundo: tem o confronto rotineiro do BOPE nas favelas e tem os assaltos à mão armada em ônibus, na rua, na joalheria do shopping. Tem arrastão na praia, tem "pivete" no Centro.
A gente não devia se acostumar, mas acaba. É até um mecanismo de defesa: se a gente surtar toda vez que isso acontece, como estaria nossa já debilitada saúde mental?
Mas aí você tá na faculdade. Você faz UFRJ. Escolheu fazer algum curso que está no campus do fundão. Dos cursos metidos a besta, só Direito não tá lá.
O fundão é uma ilha, como o próprio nome completo já diz. Definição de ilha, aqui, é um espaço de terra cercado de água e favela pra todos os lados. De um lado a linha amarela, do outro a vermelha.
Até aí ok, o fundão não é a exceção no Rio. É a regra. E exatamente por isso, lá também tem morador de rua que fica nos pontos abordando as pessoas (e ninguém faz nada ou muito pouco pra ajudar essa galera).
Tem gente que entra no CCS (o prédio de frente pro hospital e mais parto do BRT e da linha vermelha) e interrompe a aula pra pedir dinheiro. Dá aquela sensação de insegurança ao perceber que qualquer pessoa tem passe livre pra circular pelos corredores da sua faculdade, mas ok porque pedir ajuda não é crime.
Um dia você fica sabendo que estão assaltando pessoas no subsolo do seu prédio. Subsolo esse em que você tem a maioria das aulas. Você pode estar tranquilamente indo de uma aula pra outra, pensando na morte da bezerra ou na prova de amanhã e perder seu celular. E que sorte se for só o celular!
Tudo isso é péssimo, mas você não se choca. Até te perturba, te amedronta, mas você já aceitou essa possibilidade.
Segunda-feira pós feriado prolongado, dia de prova, véspera de mais prova. Fim de período, fim de faculdade, TCC pra escrever. Mais um dia normal, igual a tantos outros: eu na frente do computador do meu laboratório analisando meus dados. Telefone vibrando sem parar, indicando mensagens no whatsapp. "Do que esse povo tanto fala?".
Abro as conversas e tem áudio de uma amiga, ofegante e com voz de choro, dizendo que correu de homens encapuzados e de fuzil que estavam num bloco anexo ao nosso prédio. Todo mundo correu, a PM chegou, evacuaram esse anexo e falaram pra ninguém sair do prédio.
Por bom senso ou por falta de oportunidade, os policiais não atiraram, os bandidos fugiram. Mas o caos já tinha se instalado. E dessa vez, com razão.
Mais uma vez, UFRJ virou tema de matéria no jornal. E não era pra falar que a gente desbancou a USP do primeiro lugar de melhor universidade do país. Nem pra contar que, em algum laboratório, alguém descobriu alguma coisa importante pra curar um tipo de câncer. Não.
A gente vira notícia porque ninguém nunca ouve falar que nas outras faculdades (públicas) do Rio coisas assim aconteçam. Até outro dia, era "só" sequestro relâmpago na porta do hospital ou no estacionamento do CT. Agora é roubo de carga dentro do CCS, com fuzil.
É surreal. É bizarro. Mas eu não tô com medo. Eu tô chocada, horrorizada, até um pouco puta. Puta de saber que hoje depois das 15h a maioria dos professores suspenderam suas aulas, mas as de amanhã e daqui em diante estão mantidas e NADA vai estar diferente. Puta porque não adianta ficar puta. Não tem o que ser feito. Não tem como policiar cada ponto do fundão. Não tem efetivo e não tem dinheiro pra bancar o insuficiente efetivo que já existe.
Somos maiores abandonados, perdidos, sem pai nem mãe. E não há nenhuma perspectiva de melhora. Desanima passar muito mais tempo na faculdade do que em casa e não se sentir seguro – nem do lado de dentro, nem do lado de fora.
Vida que segue, mas não devia.
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