Despedida
Acordei de madrugada achando que já era tarde. O relógio na cabeceira da cama marcava 5:30 da manhã. Mas não tinha importância porque eu sempre me atrasava pra chegar no trabalho. Então, acordar um pouco mais cedo só podia ser vantajoso.
Me arrumei e tomei aquele café da manhã de serviço de bordo, típico de quem mora sozinho e não tem paciência pra fazer qualquer coisa muito cedo.
Mesmo quando eu tentava não pensar nisso, mesmo me educando mentalmente todos esses meses, era inevitável pensar nela.
Ela, cuja ausência era sentida em cada canto da casa, em todo minuto da rotina. Sentia falta dela queimando demais o pão na frigideira, das músicas que ela escolhia no carro quando íamos pro trabalho juntos. Da forma como ela dobrava as minhas roupas na gaveta, do cheiro de laranja que ficava no banheiro quando ela lavava os cabelos longos e cacheados.
Todos os dias não estar com ela era uma dificuldade a se enfrentar.
Os amigos ainda não tinham se acostumado também. É, sobretudo, ainda não tinham parado de tentar me consolar sempre que podiam.
Pelo menos, já desistiram de me ligar pra perguntar se eu precisava de alguma coisa. Existia a possibilidade dessa resposta ser positiva? Do que eu precisaria?
Mas eu não me aborrecia. Eles só estavam sendo legais. A Clara sempre teve bons amigos e isso me ainda deixava feliz por ela. Não que importasse, agora.
Olhei o relógio e 1 hora e meia já havia se passado desde que acordei. Estava começando a ficar atrasado de novo, apesar de isso não me aborrecer de forma alguma.
Já ia pegando as chaves pra ir embora quando lembrei que precisava achar alguns documentos antigos pra levar pro trabalho. Eu nunca fui o homem mais organizado do mundo, mas a Clara era. Então ela tinha na cômoda diversas pastas em que ficavam os documentos, guardados por assunto. Não seria uma perda de tempo grande resolver esse problema.
Uma a uma abri as pastas que podiam conter o que eu precisava. Lá pela sexta, numa pasta pequena e rosa (que sempre achei que fossem de coisas dela), estavam lá os benditos documentos. Junto, meus diplomas da faculdade e do mestrado, os certificados de congressos e diversos outros papéis que nem lembrava da existência.
Redescobrindo esses, achei também um bilhetinho em post-it verde, com uma letra grande e redonda (o oposto da minha), em que se lia "Você nunca arruma sua bagunça, mas felizmente você tem a mim. Te amo mesmo assim".
Clara tinha essa mania de deixar bilhetes pra mim espalhados em pontos estratégicos da casa. Geralmente, era avisando que tinha ido em algum lugar antes de eu chegar em casa ou acordar. Como ela odiava ir sem se despedir de mim, costumava escrever algo fofinho no fim.
Sempre achei isso legal, mas no sentido prático. Então não me passou pela cabeça guarda-los como lembrança. Até porque nunca achei que precisaria de uma.
Ela se foi tão de repente, de uma forma tão abrupta e idiota, que não houve tempo pra um adeus. Nada mais injusto e doloroso.
Ao invés de cair em prantos, sorri de orelha à orelha com a visão daquele bilhetinho. Por um segundo, era como se ela ainda fosse voltar depois das sete da noite ou depois de uma viagem de trabalho. Eu sabia que não, mas era uma sensação boa mesmo assim.
Peguei os documentos, prendi o bilhete no canto na moldura da nossa foto e fui embora pro trabalho, tendo o primeiro dia bom desde que eu pensei ter perdido a capacidade de sorrir.
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