Crise de meia idade

Eu estava na segunda cerveja, já meio sem visão periférica, com o lábio dormente e ficando com aquele sono que sempre bate quando eu bebo algo fermentado. O Gabriel tinha vindo de carro e, por isso, eu estava bebendo sozinha. 
A semana tinha sido corrida pra nós dois: cada um sacrificando as preciosas horas de sono por motivos importantes - eu pelas provas, ele pela namorada. Então estávamos os dois exaustos dos dias anteriores, mas persistentes na ideia de nos encontrarmos pra colocar o assunto em dia e comer hambúrguer. 
Combinamos de ir cedo pro barzinho pra não sairmos de lá tarde - e quando deu dez e meia já estávamos bocejando enquanto terminávamos de comer a batata frita. Mas tudo bem, nenhum de nós encarava isso como falta de interesse: reconhecíamos o cansaço um do outro e fomos tratando de nos despedirmos pra finalmente descansar. 
Me surpreendi quando cheguei em casa e ainda faltava mais de uma hora pra dar meia-noite. Parecia que cada vez eu chegava mais cedo em casa, mesmo o programa sendo divertido e tendo boa companhia. 
Liguei a TV já deitada na cama e me deparei com o Rock In Rio ia rolando a pleno vapor. Inclusive, vários amigos meus estavam postando imagens no facebook e instagram do evento. E só de ver as fotos e os vídeos, fiquei feliz por estar vendo o mesmo show no conforto do meu ar condicionado e da minha cama. 
Refletindo rapidamente, me dei conta de que não tenho coragem de ir ao RiR de novo. Não só por gastar dinheiro num ingresso abusivo pra ver bandas que eu não sou tão fã assim, mas por me deslocar e me desgastar no calor, no tumulto e no transporte público. 
E, assim que concluo, caio em mim: só tenho 22 anos. Essa é a época em que, teoricamente, eu deveria ter muita energia pra ir em baladas, virar a noite bebendo ou em shows. Mas meu raciocínio é de uma mulher pós 35 anos, dessas que já são noivas ou casadas, tem um emprego estável e possivelmente um filho pra criar.
Mas que dia eu envelheci tantos anos? 
Até outro dia eu era tão cheia de vida, animação, energia!
Lembro que quando estava com 17, tudo o que eu mais queria era fazer 18 pra poder ir nas boates que têm no centro e na zona sul, dançar a noite toda e voltar pra casa de manhã. E, logo depois de ter idade pra isso, fui em uma e achei legal. Depois em outra e foi... maneiro. Mais outra no ano seguinte e já ficou meio cansativo chegar em casa de manhã, mas ok, ainda valeu a pena. Ano passado eu resolvi tentar de novo e poucas vezes na vida eu quis tanto ir pra casa no meio da madrugada - estava exausta de ficar em pé e morta de fome. Por que nessas festas nunca tem nada pra comer? Esse pessoal não sente fome, só sede (de álcool)? 
Foi aí que desisti de me deslocar vários quilômetros pra me divertir de noite. Comecei a frequentar os bares aqui de perto mesmo, numa rua onde ficam todos os barzinhos da região. O Uber na volta pra casa dá 10 reais e, se eu sair cedinho, ainda dá pra voltar de ônibus. 
O único problema de lá são os jovens. Sim, os jovens: os adolescentes que andam em bando com uma garrafa de Smirnoff comprada em depósito, quase fantasiados com aquelas calças rasgadas, blusas cheias de informação, boné de aba reta pra trás e cabelo colorido. Por não terem idade pra permanecer dentro de nenhum daqueles bares, eles passam pela rua pra cima e pra baixo, jogando na minha cara a disposição deles pra ficarem socializando até tarde e a capacidade de beber sem sentir sono. Gritando, rindo, se beijando, cheios de alegria e sem uma faculdade pra se preocupar, sem um boleto pra pagar. 
Ah! Eles que esperem... Um dia estarão exatamente como eu: saindo com o objetivo de comer um bom lanche, não cogitando ficar mais de 10 minutos em pé e chegando em casa relativamente cedo pra poder dormir e recuperar as horas de sono que a rotina corrida da vida adulta insiste em roubar.
"Um dia eles vão ver..." - foi meu último pensamento antes de dar as costas ao show na TV e dormir aquele sono de criança cansada, logo depois da meia noite.  

Comentários