Camellia sinensis
Estava sentada no banco daquele shopping deserto que você gostava tanto de ir. Eu nunca tinha te visto, mas já adorava a sua pessoa.
Você chegou com o seu jeito sério e tímido – tão característico –, a mochila de quem veio direto da faculdade, e o adesivo do Freixo colado na blusa preta. E, ao te ver, sorri imediatamente porque me reconheci em você.
Achava engraçado como tínhamos assunto novo até recordando brinquedos da infância remota dentro da Rihappy e como falávamos de coisas difíceis com tanta naturalidade, como se nos conhecêssemos há tempos, sem estranhezas.
Lembro que fomos comer e acho que nunca tomei tanto chá gelado na minha vida: um copo atrás do outro, copo um camelo no deserto ou um alcoólatra no bar. Quando eu fico nervosa, preciso ocupar meu corpo com alguma coisa inócua porque sei que minha mente ansiosa pode me trair e me obrigar a falar ou agir de um jeito estranho.
No fim das contas, não havia espaço pra conversas triviais, como quais eram nossas bandas favoritas. A conversa fluiu com tantos assuntos profundos e novos, daquele que não se tem com qualquer pessoa. E aquele pânico ansioso de ficar sem assunto ao longo das horas se dissipou completamente: até o tempo que o semáforo demorava pra fechar eram minutos a serem explorados.
Não me recordo mais em que momento da noite você me beijou, só de ter sentido meu coração batendo rápido daquele jeito que eu sabia ser perigoso. Perigoso porque costumava me encantar fácil por caras como você. E apenas por temer a falta de reciprocidade, isso me assustou.
Mesmo assim, tinha sido bom saber que eu podia sentir isso outra vez. Que aquilo que eu julgava estar morto não estava: olhar pra alguém e ficar feliz, sem fazer comparações, contemplando as semelhanças e aceitando as divergências – tão ínfimas naquele momento que nem dava pra suspeitar que, no futuro, importariam tanto.
Peguei meu caminho pra casa ainda com o coração insistindo em bater mais depressa. Podia ter sido só a cafeína.
Ou a cafeína podia ter mudado de nome, adquirido outro: um nome próprio.
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